Por que as pessoas traem?
Andrew G. Marshall*
Casos extraconjugais sempre foram arriscados. E é lugar-comum dizer que as tecnologias de hoje, embora tornem mais fácil levar uma relação assim, quase que garantem a descoberta graças a extratos bancários detalhados, notas de compra com horário, mensagens de texto e assim por diante. Pior ainda, não é possível menosprezar a seriedade disso porque as “doces palavras” podem ser rastreadas nos correios de voz e e-mails comuns. Com esse nível de vigilância, é claro que pessoas sensíveis que valorizam seus casamentos jamais transgrediriam. Então por que elas o fazem?
Como terapeuta conjugal, passei anos tentando responder a essa pergunta. Os fatores psicológicos são bem compreendidos. A teoria bastante conhecida da “compartimentalização”, um termo cunhado nos anos 40 por Karen Horney, fundadora do American Journal for Psychoanalysis, pode explicar como os parceiros infiéis justificam seu comportamento. Em certa medida, todos nós construímos muros para separar partes de nossa vida. Quando nos compartimentalizamos, esses mundos se transformam em caixas seladas, onde as ações em um mundo supostamente não têm nenhum impacto em outro. Assim, pessoas que são infiéis dirão: “Isso me ajuda a lidar com o estresse”, negando dessa forma o impacto sobre seus parceiros ou família. Além disso, elas imaginam que o caso não será descoberto. Afinal, está acontecendo num lugar separado.
É claro, as pessoas têm casos por inúmeras razões individuais: história familiar, vício, orientação sexual, desejo de vingança e assim por diante. Os casos podem até mesmo ser um acidente. Mas descobertas recentes de uma nova disciplina chamada de neuroestética – que busca entender nossa apreciação da arte num nível neurológico – assim como uma compreensão mais clara da própria neurociência, está levando a crença científica em direção a algumas coisas que nós sabemos instintivamente sobre o amor.
O senso comum sempre sustentou nossas noções de que o amor romântico era cultural e social, mas uma pesquisa de Semir Zeki, professor de neuroestética na University College London, sugere algo diferente. O trabalho do cérebro é processar o conhecimento que é ou herdado biologicamente ou adquirido através da aprendizagem. Nascemos com conceitos herdados, como uma compreensão das cores, que é quase impossível ignorar ou desobedecer. Mas os adquiridos – como reconhecer um carro a partir de qualquer ângulo – vêm da experiência e, portanto, podem ser continuamente modificados e atualizados. Zeiki acredita que nossos princípios-guias sobre o amor romântico não são adquiridos, mas sim herdados.
Zeki é especializado no estudo anatômico e fisiológico do cérebro visual primata, e mede o fluxo de sangue em certas regiões usando ressonância magnética e tomografia. Mas em seu último livro, “Splendours and Miseries of the Brain” [“Esplendores e Misérias do Cérebro”], ele combinou seu conhecimento científico de como o cérebro funciona com evidências diretas da produção do órgão ao longo do último milênio – incluindo esculturas, pinturas, literatura, música e dança. Ele descobriu que os humanos compartilham mitos universais sobre o amor que variam “pouco, se é que variam, de uma cultura para a outra ou ao longo do tempo”. Como muitos desses mitos não podem ter sido transmitidos culturalmente (digamos, entre a Inglaterra medieval e a China), eles devem ter uma herança biológica comum.
Da mesma forma, o conceito fundamental por trás da emoção do amor – a da “unidade no amor” - também é herdado em vez de aprendido; é esse instinto que nos compele a relações sexuais passionais, porque o sexo é o mais perto que podemos chegar de nos fundir com outro indivíduo. Nós buscamos esta união com tanta força porque ela está biologicamente arraigada em nossos cérebros. Infelizmente, a vida cotidiana do casamento – ganhar a vida, administrar o lar e cuidar da família – está normalmente em desacordo com a ideia do nosso cérebro de “unidade no amor”. A paixão de um caso extraconjugal, por outro lado, liga os amantes proibidos de uma forma que replica o nosso conceito herdado de amor e vai contra qualquer ideia adquirida de que isso é errado.
Isso pode nos ajudar a entender como os casos começam, mas por que, uma vez que começam, é tão difícil terminá-los? Em 2000, um colega de Zeki, Andreas Bartels, escaneou os cérebros de alunos que estavam “verdadeiramente, profundamente e loucamente apaixonados” e mostrou a eles fotos de seus parceiros. Ele então comparou os resultados com pessoas que usaram cocaína ou opiáceos e descobriu que muitas das mesmas regiões do cérebro associadas ao uso de drogas se tornavam ativas, especialmente as responsáveis pela emoção (córtex insular), antecipação de recompensa (córtex cingulado anterior) e memória (núcleo caudado). Os amantes também mostraram três sintomas clássicos do vício: a tolerância, retração e recaída. No começo de um caso, os amantes se encontram ocasionalmente, mas à medida que o vício cresce eles precisam cada vez mais de sua droga (estarem juntos) e reclamam: “Não consigo ter o suficiente de você”. Finalmente, apesar de todas as tentativas de parar antes que a infidelidade seja descoberta, eles recaem como viciados em drogas porque algo – uma música favorita, visitar um lugar de encontro – detona a necessidade de outro “barato”.
Isso me ajuda a entender minha própria pesquisa – respondida por 358 adultos voluntários através do meu site – que revela que o ponto de crise mais comum para uma relação de longo prazo é 24 anos. Parece que observar nossos filhos descobrirem a “unidade no amor” e sua natureza compulsiva reacende nossos próprios desejos e pode fazer com que pareça que falta algo às parcerias de longa data.
Os terapeutas jamais deveriam assumir um lado, mas eu admito que minha objetividade tem sido testada quando pacientes adúlteros alegam: “Não há nada que eu possa fazer”. Pergunto-me como eles puderam ser tão estúpidos. Mas, dado o que sabemos sobre o cérebro, talvez todos nós precisemos ser mais realistas e generosos. Por mais que os políticos prometam incentivos fiscais ou leis para promover o casamento, e por mais que nós desejemos manter nossos votos, alguns de nós inevitavelmente cairão na armadilha da natureza e da química do amor.
*(Andrew G. Marshall é o autor de “How Can I Ever Trust You Again?” [algo como “Como Poderei Voltar a Confiar em Você?”)
Tradução: Eloise De Vylder
Esse espaço foi criado para eu dividir com vcs, leitores, meus devaneios, temas de aula, hobbies, publicações científicas, poesias e temas voltados a Biologia e Evolução.
O Mundo sem nós - Allan Weissman
São muitas as questões levantadas pelo premiado jornalista Alan Weisman nesta investigação científica. Após entrevistar especialistas – zoólogos, biólogos, engenheiros e paleontólogos, – Weisman faz revelações fascinantes e, ao mesmo tempo, perturbadoras sobre o impacto da humanidade no planeta. Nós fomos responsáveis pela extinção de várias espécies, e a natureza sobreviveu. Mas o que aconteceria se, atacados por um vírus, desaparecêssemos? Quais seriam as primeiras criações humanas a sumir? E as últimas? Misturando ciência e especulação, este livro será, certamente, um clássico.
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